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Sábado, 30/07/2016, 07:51:49 – Atualizado em 30/07/2016, 08:33:19

Veio um pouco por acaso. José Torres, 53 anos, gerente de engenharia, estava se preparando para a aposentadoria, já estava até pensando em um projeto relacionado a resíduo de construção civil. “Era pra eu fazer alguma coisa, não queria ficar parado depois de me aposentar”, diz ele. Conversando com o cunhado, que estava voltando de uma viagem à Portugal e veio com uma revista de cerveja artesanal, logo decidiu mudar de rumo. “Achei muito interessante e pensei: meu projeto é esse aqui”, conta ele.

O paraense nem mesmo esperou a aposentadoria, decidiu fazer da cerveja artesanal seu hobby, comprou um equipamento para fabricação caseira há dois anos e deixou para o futuro o projeto de montar uma microcervejaria, que já tem nome registrado: Papaxibeer. Um incentivo para o engenheiro foi a vitória no “1º Concurso de Cerveja Caseira da Amazônia”, promovido pela Liga Amazônica das Acervas (Associações dos Cervejeiros Artesanais).

O concurso englobava três estilos de cervejas: American Ipa, Belgian Blond Ale e Estilo Livre com ingredientes regionais, pelo qual o cevejeiro caseiro concorreu. Presidindo a banca de jurados estava Gil Lebre, campeão brasileiro de Beersommelier, e ainda Paulo Schiaveto, sommelier da região e mestre cervejeiro. “Eu nunca tinha participado de nenhum concurso. Fiz essa pensando numa homenagem aos 400 anos de Belém, queria algo bem paraense”, descreve.

José revela que normalmente – e este foi o caso -, ao criar e produzir uma cerveja, conta com a ajuda de suas duas filhas. Camila, 29, que estava em São Paulo fazendo uma pós-graduação quando o pai decidiu entrar para o mundo da fabricação de cervejas, se interessou também pelo hobby dele e fez cursos em uma escola cervejeira por lá. Enquanto ela ajuda o pai – que também foi a São Paulo para fazer um curso sobre montagem de cervejaria – a desenvolver as receitas, é a filha mais nova, Carolina, 28, que ajuda a executar.

Por onde começar

“A princípio foi muito trabalhoso. Ainda é, mas de uma forma diferente. Você passa o dia inteiro para preparar a cerveja e ela só fica pronta para degustação um mês depois. É complicado quando começa a estudar, se aprofundar, mas com o tempo é como um hobby mesmo. A água daqui é praticamente zerada, tem que corrigir algumas coisas por causa do fermento. Comecei mais lerdo e pegando informações com minha filha. Depois, fiz curso na Acerva Paraense”, conta.

Algo que ele só aprendeu tempos depois foi sobre os equipamentos para fabricação caseira. “Comprei o meu em Campinas (SP), mas depois, quando cheguei aqui, vi que dava para montar em Belém”, revela. São panelões que podem ser feitos de aço inox ou até alumínio. A eles têm que ser adequadas algumas torneiras e também são necessários fogões tipo industrial.

A única coisa que não se encontra de jeito nenhum em Belém, reclama o engenheiro, são os insumos. “Não só Belém, no Norte todo é muito difícil encontrar insumos. Você faz uma cerveja basicamente com água, malte, lúpulo e as leveduras, que são os fermentos, todos importados da Alemanha, Estados Unidos, Bélgica, etc.”, explica José.

Adaptações e experimentos fizeram a diferença

Pensando em criar uma cerveja “bem parauara”, José e a filha chegaram a uma witbier (estilo de cerveja belga) de cupuaçu. Esse estilo de cerveja normalmente leva uma fruta, além de trigo não maltado, aveia, casca de laranja e semente de coentro. “A gente (José e Camila) chegou num consenso de que cupuaçu é uma fruta que representa muito o Pará e a manga é Belém”, conta o cervejeiro, que partiu dessa ideia para fazer uma combinação única.

A aveia, que nada tinha a ver com o Pará, foi a primeira substituição. Começaram os testes e, no lugar dela, a melhor opção foi a farinha de tapioca. “Já a casca de laranja precisa ser bem trabalhada pra ser colocada, porque é aquela parte branca dela que gera adstringência – um gosto travosinho que é característico dela”, explica José. Foi estudando vitaminas e ingredientes alternativos que tinham essa adstrigência que a dupla chegou à casca da manga.

Para a semente de coentro, mais referências paraenses. “O Pará é a segunda maior colônia japonesa no Brasil e ela foi, por muito anos, a maior produtora de pimenta, e assim a gente resolveu testar a pimenta rosa no lugar do coentro”, justifica ele. Até que chegou o momento de resolver a questão da fruta. “O cupuaçu era muito difícil de usar, porque fermenta muito fácil e é uma fruta muito ácida. Se for usada diretamente no preparo da cerveja, altera o gosto. Por causa disso, a gente pasteurizou e colocou no final da cerveja”, revela.

José se orgulha da criação, mas agradece principalmente o prazer que o conhecimento sobre a fabricação de cervejas caseiras lhe trouxe. “Foi uma quebra de paradigma, do meu estresse, e acabei largando a engenharia para me dedicar mais a esse projeto. A cerveja na verdade foi um remédio para mim”, desabafa. Hoje, o cervejeiro tem um espaço em casa dedicado a isso. A esposa Cláudia não gosta muito da bangunça, ele conta, aos risos, mas os amigos, esses adoram os momentos de degustação.

Acerva

Criada por amigos apaixonados por cervejas, que conheceram aquelas denominadas “especiais” e encontravam-se periodicamente para degustá-las e conversar sobre a bebida no antigo Bar Levedo, a Acerva Paraense foi criada em 2013. O concurso pelo qual José foi premiado no início deste mês foi uma comemoração aos três anos da associação, que ainda se uniu às associações do Amazonas, Maranhão e Amapá para formar a Liga Amazônica das Acervas. A instituição oferece periodicamente eventos cervejeiros, como cursos, brasagens abertas, palestras, e seus associados produzem cervejas dos mais variados estilos, inclusive com participação em concursos a âmbito nacional.

Festival da Cerveja

Mais de 10 mil litros de chopp. Cinquenta rótulos de cerveja. Dezoito cervejarias artesanais brasileiras. Esses são alguns números do primeiro Festival Amazônico de Cerveja, que aconteceu em agosto do ano passado. E o festival está de volta, nos dias 13 e 14 de agosto, no Hangar. Entre as novidades, terá show do Matanza, banda que tem tudo a ver com cerveja, e com um público bom de copo. Eles tocam no domingo, 14 de agosto. Além deles, o festival terá este ano shows de Félix Robatto, Marcelo Kawage, Puget Blues, Beatles Forever, Buscapé Blues, DJs Felipe Proença e Bernardo Pinheiro, entre outras atrações musicais. Esta edição terá também um espaço gastronômico, o “1º Concurso de Comida Amazônica” e um seminário sobre cerveja artesanal.

(Lais Azevedo)

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